ai o meu rico filho que pobre que é
nascidos do mesmo ventre
um vive de joelhos pró outro passar à frente
e esta velha mãe pràqui já no sol poente
Um dia há muito tempo vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
seguiram p'la estrada fora
um voltou-se para trás disse adeus que me vou embora
voltaremos connosco a vitória
De que vitória falas disse eu então
da que faz um escravo do teu irmão
ou dum'outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta
da miséria do outro se enriquecia
não foi para isso que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter justiça como lei
As vezes rogo pragas de os ver assim
sinto assim uma faca dentro de mim
sei que estou velha e doente
mas pra ver o mundo girar dum modo diferente
inda sei gritar e arreganhar o dente
Estou quase a ir embora mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
Não quero dar-te conselhos
mas se é o teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
doa a quem doer, faz o que tens a fazer
Sergio Godinho- José Mario Branco
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