sábado, 15 de junho de 2013

A MANIPULAÇÃO GENÉTICA E O CAPITAL!


 A manipulação genética despertou em mim a curiosidade e o interesse, para me lançar num trabalho de pesquisa e reflexão sobre o ADN. Nomeadamente o que é o ADN? Como surgiu e quando surgiu o ADN? Quais os fins dados ao ADN? Que perspectiva de usos futuros com o ADN?

Eu, pessoalmente, tentei reunir o máximo de informação, em livros, enciclopédias e em vários sítios na internet. Vou partir para a manipulação, não do ADN, mas da informação recolhida e manifestar o meu pensamento quanto às manipulações reais do ADN pelas comunidades científicas.

O Que é o ADN?

O ADN é uma molécula que existe dentro das células de todos os seres vivos, bactérias, fungos protozoários, plantas e animais. Digamos que o ADN é o SISTEMA OPERATIVO dos seres vivos. É o sistema que controla toda a informação genética com todas as características de cada ser vivo. Segundo os cientistas, O ADN contem as informações necessárias para formar e dirigir todo o processo de reprodução de um qualquer ser vivo. Ele é como um código secreto que ao ser decifrado pela célula produz todos os componentes que fazem parte de todo e qualquer ser vivo.

Todos nós, seres humanos, mas também todos os outros seres vivos sejam eles microscópicos ou gigantescos, frágeis ou robustos. Todos possuímos um património genético, o nosso próprio ácido desoxirribonucleico (ADN), o que nos torna únicos. É esta molécula, (ADN), que faz de nós quase iguais, quase gémeos mas também todos diferentes, únicos. A sua composição química e estrutura são elementos muito importantes para a biologia molecular. Sabe-se hoje que todas as informações que determinam as formas e as funções dos seres vivos estão armazenadas nos cromossomas, estruturas enoveladas que existem nos núcleos de todas as células. Cada espécie tem um número de cromossomas, que é o seu património genético. A espécie humana, por exemplo, possui 46 cromossomas.

A maquinaria da hereditariedade, nos cromossomas é constituída pelos ácidos desoxirribonucleicos (ADN), que é o principal e o ribonucleico (RNA). O ADN é capaz de produzir cópias de si mesmo no momento da reprodução celular, passando intacto para a célula filha e levar consigo as informações da célula mãe.

O ADN é formado por longas cadeias de nucleiotídeos. O nucleiotídeo consiste na função de uma molécula de um açúcar (desoxirribose) com uma molécula de ácido fosfórico e uma molécula de uma base nitrogenada (adenina, guanina, citosina ou timina). As cadeias do ADN enrolam-se em espiral dupla de tal forma que as bases se emparelham. A sequência de bases três a três forma um código que regula a síntese das proteínas, individualmente, sendo os constituintes mais importantes dos seres vivos.

Podemos afirmar que o ADN é quem garante que um cavalo pareça um cavalo e uma gata pareça uma gata etc.

Mas, como explicar as variações das espécies? As proteínas de todos os seres vivos são constituídas por cadeias longas de 20 aminoácidos, o que difere umas das outras é a posição de cada aminoácido na sequência da cadeia. Cada três pares de bases do ADN codificam um aminoácido da cadeia proteica. Vários conjuntos de três pares codificam uma proteína inteira. E cada proteína é responsável por uma característica da espécie.

Pinceladas de História

Em 1856, o monge e botânico austríaco Gregor Mendel descreveu as leis básicas da hereditariedade. Ele fê-lo a partir do estudo sobre sucessivas gerações de ervilhas verdes e amarelas. Ele concluiu que existiam elementos autónomos que controlavam as características hereditárias. Ele foi na realidade o pai da genética, mas a sua obra não foi levada em conta até ao início do século XX.

Juann Mischer, em 1869, analisou pus humano evidenciando o ADN. Mas a evolução quanto ao perceber e conhecer mais em profundidade levou Ostward Avery a “descobrir que o material genético de uma bactéria podia alterar a descendência de outra. Chegados ao ano de 1953, o biólogo James Watson e o bioquímico Francis Crick, desvendaram o segredo de como é feita a molécula de ADN. Eles viram que o ADN tem a forma de uma dupla hélice em espiral, com apenas quatro peças, revelando uma simplicidade surpreendente.

Neste caminho imparável, o químico Paul Berge em 1960 conseguiu clonar ADN.

Em 1970 os cientistas “ descobriram” como cortar e pegar fragmentos de ADN, o que abriu as portas para os grandes avanços posteriores da engenharia genética.

Alteradas as normas, em 1970, impostas pelo Instituto Nacional de Saúde dos EUA sobre investigações com ADN recombinante. Um ano depois foi construída a primeira fábrica industrial para produzir insulina.

Em 1990 realizou-se o primeiro procedimento de uma terapia genética. O paciente foi uma menina de quatro anos com uma grave deficiência imunológica. Está viva e livre de parte da doença.

Decifrado o primeiro Genoma de um ser vivo, em 1995, o da bactéria causadora da meningite e infeções no ouvido e nasceu a primeira ovelha transgénica.

A comunidade científica em 1999 dera mais um passo no caminho da clarificação do ADN e decifraram o primeiro cromossoma humano, o 22.

               

A Dialéctica da Evolução

  Chegados a 2001, conclui-se que grande parte do material genético humano deriva de micro organismos primitivos como vírus e bactérias. Há 113 genes humanos que provem directamente das bactérias. E, descobriu-se que 99,99% dos genes nos seres humanos é compartilhado entre si. Estes factos vêem demonstrar mais uma vez a justeza da teoria da evolução de Charles Darwin.

Craig Venter cientista norte-americano concluiu não haver genes suficientes para se afirmar a existência de um único segmento de ADN que justifique a homossexualidade, o alcoolismo ou a agressão.

Os seres humanos não são pois prisioneiros dos seus genes. Somos, isso sim, formados nas circunstâncias das nossas vidas e esses factos são cruciais na formação das nossas personalidades. O meio ambiente natural, o mundo que rodeia e envolve cada ser humano é fundamental na sua evolução.

A diversidade do género humano tem que ser procurada no meio ambiente e nas interações humanas e não na genética.

A genética, segundo Craig Venter, baniu de vez o conceito de Raça. Negros, brancos e asiáticos diferem tanto entre si quanto dentro das suas próprias etnias. As diferenças biológicas são ínfimas entre nós. Essencialmente somos todos gémeos.

Usos e Abusos do ADN!

De uma gota de sangue, de um fio de cabelo ou de um osso pode ser retirado ADN. Esse segmento de ADN pode ser multiplicado milhares de vezes até se produzir ADN suficiente para a identificação de casos de paternidade, crimes sexuais, crimes judiciais etc.

Os estudos do ADN já levaram á reprodução de órgãos, á reprodução total de animais.

Segundo o laboratório Diagenix, o exame de paternidade é um dos recursos mais utilizados pela justiça, a partir de técnicas que empregam o exame do ADN. Isso pode ser feito em situações tais como:

Estando o bebé ainda no útero (retiram um pouco de líquido amniótico para teste; Após o nascimento do bebé, retiram uma amostra da placenta ou uma amostra de sangue; Sendo o pai vivo (em ambos os casos acima descritos) retiram uma amostra de sangue e fazem a comparação do bebé e do pai; Sendo o pai falecido, podem extrair amostra do ADN a partir da medula de um osso longo, como o fémur, ou um fio de cabelo e fazem a comparação.

O ADN é usado ainda e em larga escala na manipulação de alimentos.

Os transgénicos, hoje em dia, invadem países, continentes e o mundo.

Evolução, e Transformação Naturais!

Com o avanço do projecto Genoma, poderemos prever evoluções para tratamentos mais eficazes e controlo médico sobre doenças crónicas como a diabetes, hemofilia etc.

Terapia genética mais abrangente e evolução no ramo dos fármacos.

A manipulação do ADN assim como a utilização de qualquer nova tecnologia deve obedecer aos interesses dos cidadãos, da natureza e condicionar os usos que visam o lucro, lançando os cidadãos e a natureza nos desequilíbrios.

As tentativas dos homens com miolos e olhos feitos de cifrões, que tentam, pagando a cientistas, fazer seres sub-humanos, metade homem e metade chimpanzé, devem ser condenadas.

As utilidades de um ser assim transformado seriam para a “ realização de trabalhos humildes” ou como “ banco de órgãos para transplante”.

Tudo indica que se trata de um balão de ensaio para acostumar a humanidade com a absurda ideia de usar a engenharia genética para produzir raças ou subespécies mentalmente inferiores que sirvam para o trabalho, ao lado de uma raça de “superiores” destinada a dirigir o mundo, ao prazer e ao ócio.

É um velho sonho do capitalismo dispor de trabalhadores incapazes de praticar lutas pelos direitos, geneticamente programados para aceitar docilmente a exploração.

Mas, parece que, os especialistas em genética não avalizam a possibilidade deste cruzamento, homem macaco.

Espera-se que a esmagadora maioria dos cientistas que pesquisam a genética, que o seu interesse deva ser o aperfeiçoamento da espécie humana, a transformação da natureza viva, em benefício da humanidade.

A natureza leva 25 milhões de anos de evolução a partir de um primata (Driopiteco)

Para produzir a forma mais aperfeiçoada da matéria vivente, o Homo Sapiens. É o animal mais perfeito, não apenas porque é o único que tem consciência, fala e criou uma civilização científica e tecnológica. Do ponto de vista anatómico também o mais perfeito. A mão humana é infinitamente mais adaptada para produzir instrumentos que a de qualquer macaco.

Uma experiência de manipulação dos genes humanos com os de macacos, teria resultados imprevisíveis sobre tal ou qual características humanas. Por outro lado, a doação de órgãos por seres humanos pode perfeitamente atender às necessidades dos transplantes. Por trás da criação de um ser sub-humano, estariam ou estarão as intenções de “criar” seres anatomicamente idênticos aos humanos mas com cérebros próximos ao do macaco. Assim os usurpadores das mais-valias do planeta teriam ao seu serviço trabalhadores capazes de trabalhar, mas incapazes de pensar, de interrogar, de questionar, de contradizer, de lutar pela resolução das suas necessidades e querer “ Fazer o Que Ainda não Foi Feito”.

Hitler achou que os alemães eram os “superiores eleitos” e tentou escravizar os “povos inferiores”. Não deu certo. Posteriormente surgiu a ideia de criar os “inferiores” em laboratório.

Fica-nos a esperança de que a humanidade se incumbirá de sepultar tal ignóbil ambição.         






Conclusão

Esta pesquisa deu-me imenso gosto realizar. Aumentou e cimentou os meus conhecimentos, juntou mais argumentos e somou os científicos aos empíricos.

O resultado é maior solidez de conhecimentos gerais e maior desenvoltura nas consultas de sítios vários na internet, enciclopédia e livro do genoma.

Com o avanço do projecto Genoma, a humanidade poderá ter esperanças, (mas sempre moderadas devido aos interesses económicos, religiosos e ignorantes), positivas no alcance de tratamentos mais eficazes e de controlo de doenças crónicas como a diabetes, hemofilia etc.

Para além da terapia genética, poderemos prever também evolução no ramo dos fármacos. Assim, e concluindo este trabalho de pesquisa sobre o ADN, sabendo nós que a ciência está em constante desenvolvimento, novas leituras, sobre todos os aspectos da vida material e do genoma em particular são de esperar.

Tais leituras poderão fazer com que “o mundo pule e avance” beneficiando as vidas dos seres vivos, nomeadamente dos seres humanos.

O que hoje nos parece impossível pode a qualquer momento ser visto por um ou mais cientistas e um novo rumo a uma saúde melhor para a nossa espécie, pode ser aberto.

Resta-nos pressionar os governos dos países para não permitir que os poderes económicos tomem conta dos saberes para realizar lucros fabulosos tornando os avanços positivos inacessíveis aos cidadãos que vivem e vegetam com falta de meios de sobrevivência.

Fontes:

v  Genoma humano

v  O ADN Linguagem da vida

v  O que é o ADN

v  Espaço Ciência Viva

v  DNA-Biologia e – escola

v  Revista USP-Manipulando genes em bus….

v  Todos somos diferentes e isso está presente…



Francisco Tomás

sábado, 8 de junho de 2013

A LUTA MAIOR DE NELSON MANDELA!



 Neste momento em que , Nelson  Mandela, luta pela  sua sobrevivência , quero deixar aqui a minha solidariedade com a sua luta, apesar da ameaça dos anos que carrega e das maselas das feridas que lhe marcam o corpo e a alma, devido ás punições impostas pelos carrascos do antigo regime .

Deixo este seu  marcante poema .

 Nelson Mandela

Do avesso desta noite que me encobre,
Preta como a cova, do começo ao fim,
Eu agradeço a quaisquer deuses que existam,
Pela minha alma inconquistável.

Na garra cruel desta circunstância,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.

Além deste lugar de ira e lágrimas
Avulta apenas o horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará destemido.

Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.

(Tradução livre) 



 Francisco tomás
Seixal 08/06/2013




quarta-feira, 5 de junho de 2013

A DIVIDADURA

CAPÍTULO 4

 

 

 

A TRADIÇÃO BÍBLICA DE CANCELAMENTO DAS DÍVIDAS


Durante séculos, a lei e a religião protegeram os devedores da expropriação que os credores reclamavam. propriedades aos devedores.Os primeiros livros da Bíblia, e antes deles a tradição da Mesopotâmia, do Egito e de outras regiões medeterrânicas, impunham o perdão das dívidas todos os sete anos, bem como a devolução das propriedades aos devedores.

As dívidas são tão antigas como a relação económica entre as pessoas. E a negociação e cancelamento das dívidas também. A Bíblia chamava-lhe o perdão da dívida: «No fim de cada período de sete anos, deves perdoar as dívidas. Será da seguinte maneira: todo aquele que tiver emprestado alguma coisa a alguém deve-lhe perdoar e não exigir a restituição. É um ano de perdão em honra do Senhor. Aos estrangeiros podes exigir o pagamento da dívida. Ao teu compatriota é que lhe deves perdoar o que lhe tiveres emprestado» (Deuteronómio 15:1). Esta é a recomendação de um dos primeiros livros do Antigo Testamento: perdoa a dívida, mas apenas se for de um conterrâneo.

A lei que impõe o cancelamento das dívidas devia ser lida e aplicada de sete em sete anos: «Moisés escreveu esta lei e entregou-a aos sacerdotes de Levi, que transportam a Arca da Aliança do Senhor, e aos anciãos de Israel, com a seguinte ordem: "No fim de cada período de sete anos, isto é, no ano em que se devem perdoar as dívidas, durante a festa das Tendas (...) devem ler publicamente esta lei diante de todos"» (Deuteronómio 31:10). Lida e repetida em público, para que todos a saibam e lhe obedeçam.

O perdão das dívidas significava também  o fim da escravidão dos que tinham pago a sua ruína com a sua liberdade: também esses deviam voltar a casa, libertos das cadeias da servidão, readquirindo a sua terra. «Como se disse, neste ano de Jubileu, todos voltarão a ser donos do que era seu», escreveu-se noutro dos livros do Antigo Testamento (Levítico, 25:10). O Jubileu era precisamente a festa, comemorada depois de sete períodos de sete anos, em que se garantia a todos a devolução das propriedades que tinham perdido por força das sua dívidas.

Estes livros do Antigo Testamento terão sido escritos  pelos séculos VI e V da nossa era (frequentemente designada por a.C., antes de Cristo, ou também por a.e.c., «antes da nossa era comum»). Representam a sabadoria, os costumes e o consenso cultural expresso nas normas religiosas de tribos que ocupavam a Palestina e as suas vizinhanças, no que hoje chamamos o Médio Oriente, do Mediterrâneo à Mesopotâmia. Terras de pastores e de camponeses, onde se forjaram alguns dos primeiros Estados, com os seus poderes e as suas leis. Foi nessas terras que se inventou a escrita.

É graças a essa escrita que temos alguns conhecimentos de como viviam estas sociedades. Michael Hudson, actualmente professor de economia em Kansas City e que foi analista finançeiro em Wall Street, dedicou-se a estudá-las quando era professor de arqueologia da Idade do Bronze (período que vai aproximadamente de 4000 a 1200 a.e.c.), muito antes de terem sido escritos os livros bíblicos. A sua investigação levou-o ao museu Peabody, em Harvard, nos estados Unidos, onde estão depositados muitos documentos da história da Mesopotâmia. O que descobrio foi que a libertação das dívidas estava por todo o lado e desde sempre. era uma instituição social, uma cultura, em diversas sociedades do Médio Oriente.

OS REIS CONTRA A DÍVIDA


 Durante dois milénios, sucessivas proclamações reais na mesopotâmia determinaram o cancelamento das dívidas e a restauração dos direitos e das propriedades dos devedores: entre os anos de 2400 e 1600 a.e.c., há registo de pelo menos 28 decisões dos reis para proteger os devedores. Hammurabi, rei da Babilónia, a cidade-Estado mais poderosa da região no seu tempo (cerca de 1700 a.e.c.), determinou a elaboração de um Código legal que estabelecia a libertação dos seus servos por dívidas depois de três anos de submissão, ou o fim das dívidas em períodos de seca ou de cheias. Na festa do Ano Novo, que se comemorava na Primavera, as placas de barro que registavam as dívidas eram destruídas. O mesmo tipo de éditos foi encontrado nos documentos históricos da Judeia,do Egito, da Grécia. Um deles está reproduzido na figura seguinte.

A probalidade da intervenção real para libertar os escravos por dívidas era tão forte que se faziam contratos de venda de escravos incluindo claúsulas de indemnização aos compradores para o caso de eles serem entretanto perdoados pelo rei. Ora, porque razão eram os reis tão diligentes a salvar os devedores? O que é que tinham a Mesopotâmia, a Judeia e o Egito em comum que determinasse tais intervenções misericordiosas em todas esta regiões? A resposta é simples: o interesse e a vantagem mútua.

O rei tinha sempre duas vantagens na anulação das dívidas e na libertação destes escravos. A primeira vantagem era restringir a acumulação de propriedade pela aristocracia, em particular de terras: a devolução das terras confiscadas aos devedores impedia a constituição de grandes propriedades fundiárias e a concentração do poder que lhes estava associado. E uma aristocracia fraca significava um rei forte. A segunda vantagem deste processo de anulação das dívidas era a convocação dos camponeses, assim libertos, para o exército real. De facto, alguns dos éditos de cancelamento das dívidas foram proclamados por reis que tinham subido ao trono há pouco tempo,sobretudo no fim do primeiro ano de reinado, e que precisavam de construir o seu poder, ou que estavam a preparar uma campanha militar. Como tantos outros antes e depois dele, o faraó Bakenranef, do Egito, decretou em 720a.e.c. o fim das dívidas que não estivessem comprovadas por contratos escritos, porque estava a ser ameaçado pela vizinha Etiópia e precisava de soldados.

A restauração da ordem económica com o cancelamento das dívidas permitia não só afirmar o ritual majestático- o rei decidia da servidão ou libertação dos devedores- como ainda manter uma estrutura social sem demasiadas ruturas. Assim, durante pelo menos dois milénios da Idade do Bronze, as dívidas foram periodicamente anuladas na Mesopotâmia, bem como nas terras vizinhas.


 A Bíblia é herdeira dessa tradição e os textos que foram citados ni início deste capípulo, bem como a genaralidade dos primeiros livros do Antigo Testamento, demonstram a força da tradição moral e do mandado legal que obrigavam ao perdão das dívidas cada sete anos. A restituição das propriedades e do direito do devedor era imperativo legal e religioso. Ao estudar esta documentação, Hudson afirma mesmo que a ideia de redenção dos cristãos se baseava na tradição de libertação dos laços de escravatura por dívida: a palavra «redenção» quer precisamente dizer que se recupera algo que se perdeu ou alienou. A palavra suméria para a recuperação da dívida era «amargi», que queria dizer «recuperar a liberdade», «voltar à mãe».

(TEM CONTINUAÇÃO)





























































































 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A DIVIDADURA

capítulo 3


AUMENTO DE IMPOSTOS



Chegados aqui,já sabemos o que se vai passar: para pagar as dívidas da nacionalização da banca, vai haver um novo aumento de impostos, desta vez para financiar a banca internacional. O trabalhador, cuja dívida pessoal foi protegida, tem de pagar por outra via, que serão os novos impostos. Claro, é facil imaginar que o governo simplesmente declare que não paga as dívidas internacionais dos bancos privados que nacionalizou. Mas, então, toda esta operação da desvalorização da nova moeda pode ser posta em causa, porque o seu objetivo era aumentar as exportações para os mercados abertos, de modo que o aumento das vendas dos produtos portugueses salvasse a economia.

 Por outro lado, esta decisão tornaria ainda mais difícil o acesso da economia a financiamento externo. Sem conseguir pedir emprestado diretamente a outros pa´ses ou nos mercados financeiros, restam duas opções ao governo portugês. A primeira é manter o saldo primário positivo: quer isto dizer que o governo não poderá nunca gastar mais do que recebe em impostos. A segunda opção é usar as sua novas disponibilidades, porque o Banco de   Portugal passa a imprimir cada vez mais escudos para fazer os pagamentos do Estado, mas essa estratégia acentua a desvalorização e a inflação.

Voltemos agora aos problemas que o governo está a viver desde que decidiu a saída do euro ou que aceitou o ultimato imaginado da Alemanha. Já tem contra si quem vai pagar mais impostos ou viu multiplicar as suas dívidas, quem paga mais pelos alimentos, transportes e medicamentos, quem perdeu parte das suas poupanças e depósitos. Com tudo isto, os trabalhadores depressa perceberão que perderam parte do seu salário (ou da pensão), que o esfoço orçamental não diminuiu (pelo contrário, agravou-se, pois a dívida vai ser paga em euros mas os impostos são recebidos pelo Estado em escodos, sendo precisos cada vez mais escudos por cada euro) e que a saúde e a educação têm novos cortes. Por tudo isso, o trabalhador vai lutar por recuperar o seu salário.

 Ora, isso pode deitar tudo a perder, dirá o governo. As exportações são mais baratas porque o escudo vale menos e as mercadorias ficaram em conta ou porque as empresas pagam os salários mais baixos em escudos. Se os salários subirem, a competitividade é de novo prejudicada. Que vai o governo fazer perante o protesto dos trabalhadores? O país está em alvoroço, houve motins à porta dos bancos porque os depositantes perceberam que iam perder, os impostos e preços estão a subir, os salários a descer.Então, o governo tem duas opções: a solução dos presidentes argentinos, que fugiram do palácio de helicóptero, ou a solução da repressão.

 Por outras palavras, a saída do euro meteu-nos numa alhada. Os economistas que queriam impedir a continuação da austeridade, e nisso tinham toda a razão, acabam a propor um sistema de mais austeridade, orientada sobretudo para o benefísio e um sector económico, a industria exportadora, aceitando a queda dos salários com a desvalorização do escudo. Criaram novas dificuldades e levará o seu tempo até que a desvalorização conduza a alguma vantagem. o natural é que o governo perca entretanto o respeito dos trabalhadores, que estão a ser prejudicados.


SALVAR A ECONOMIA COM AS EXPORTAÇÕES

Passou assim o segundo choque. Mas vem aí mais e pior. O escudo desvalorizou então 50% em relação ao euro. O governo e quem aposta na desvalorização de moeda (ver o glossário no final do livro, em que os vários termos técnicos são apresentados) para recuperar a economia esperam que o efeito benéfico seja o seguinte: as exportações deverão aumentar porque se tornam mais baratas (porque os seus preços em moeda estrangeira diminuem porque se tornam mais caras em escudos. Assim, haveria uma deslocação de capital para as indústrias e os serviços exportadores. Tudo isto melhoraria sabstancialmente a balança de pagamentos. A regra é esta: se as coisas melhorarem para as empresas exportadoras, melhorarão também para toda a economia.


Parece conveniente, mas tem falhas. É que, com a desvalorização, o preço dos produtos importados aumentaria no mesmo dia, O combustível passaria a custar uma vez e meia o seu preço anterior e todo o sistema de transportes também: imagine o litro da gasolina a 480 escodos (ou 2,4 euros actuais). O mesmo aconteceria com os alimentos importados ou com os medicamentos, entre tantos bens de primeira necessidade. Nos supermercados, os bens faltariam, mas os que estivessem à venda seriam imediatamente mais caros.

Como dois terços do rendimento dos portugueses são ghastos no consumo, imagina-se o efeito destes aumentos de preços. Este impacto faria, por si só, com que o salário passasse a valer ainda menos.
 Quanto ás exportações, é obvio que podem aumentar. Mas muitos economistas veem a sociedade como laboratório e esquecem demasiadas vezes os tempos da decisão e dos resultados das políticas. Ora, esses tempos vão ser esseciais neste caso, por uma razão simples: é que o preço das importações aumentam de imidiato, mas os efeitos do possivel aumento de exportações vão demorar algum tempo. Até pode ser muito tempo.

Ainda assim, para que as exportações cresçam, é necessário que estejam reunidas algumas condições.É preciso que os compradores estrangeiros dos produtos portugueses queiram comprar mais em função da redução do preço, desde que não recessão no estrangeiro, que os produtos portugueses correspondam a mercados com procura crescente e que as suas caracteristicas acompanhem as exigências dos consumidores estrangeiros. 

Mesmo que as exportações aumentem, será em todo o caso devagar: asas receitas das vendas só entram quando se fizerem as vendas e é preciso esperar o tempo da produção e até do aumento da capacidade produtiva: para aumentar a produção, é preciso investir, para investir é preciso ter capital necessário, contratar mais trabalhadores, paga-lhes e só depois se recebem as receitas das exportações. Para que as exportações possam liderar o processo de crescimento será necessário reverter décadas de desindustrialização em Portugal e de especialização da economia em sectores não transacionáveis. É sem dúvida desejável, mas demorado e difícil de executar a curto prazo.

Além disso, é preciso levar em consideração o custo da matéria-prima e de outros recursos que são importados, para determinar o preço dos produtos que a economia portuguesa exporta. Como metade das exportações depende de produtos importados, e estas se tornam mais caros com a desvalorização da moeda, o ganho de competitividade das exportações é diminuído. Por tudo isto as receitas das exportações aumentam pouco, devagar e mais tarde. Entretanto a vida ficou mais cara, os depósitos foram abalados pela desvalorização, o aumento de emprego e de exportações demora algum tempo e é incerto.

A recuperação pelas exportações é uma incógnita e a queda do salário é uma certeza. Ora, a política socialista,que propomos, tem um critério que é o da defesa da classe trabalhadora. Essa política é a que não sacrifica o salário, a parte legítima dos trabalhadore no produto nacional. A solução autoritária de saída do euro é uma proposta que não evita a austeridade, pelo contrário. Não há por isso nenhuma razão para defender como alternativa imediata. Ela prejudica o salário e cria mais dívida.

Escrevamo-lo com clareza: no contexto actual, a saída do euro é a pior de todas as soluções e só pode ser imposta por vontade do directório europeu. Ora, só se pode aceitar a pior das soluções quando não exista rigorosamente nenhuma outra, quando se esgotarem todas  as alternativas, quando a sobrevivência o exigir. Só há por isso uma condição em que a saída do euro se pode tornar necessária para o povo português, e essa situação não pode ser liminarmente excluida: se, perante um descalabro das instituições e das regras europeias, a sua independência for posta em causa e Portugal não tiver outra solução que não seja abandonar a União Europeia e, em consequência, o euro, para recuperar a capacidade de decisão. É ainda necessário que a maioria da população esteja empenhada nessa respoata, de modo a condicioná-la pela força dos movimentos populares e da defesa dos interesses do trabalho.

Dessa e de outras alternativas concretas vamos tratar no final deste livro. Nos próximos capítulos, começamos pelo problema essencial: a dívida. É a dívida que subordina, é a dívida que acorrenta, é a dívida que destrói as economias. É pela renegociação da dívida, e, nomeadamente, pelo cancelamento da dívida abusiva, que a economia se pode restabelecer para que a democracia volte a ser soberana.


(Tem Continuação)




















quinta-feira, 23 de maio de 2013

A DIVIDADURA

Capítulo 2









AFINAL PODE HAVER UM NOVO FERIADO


Comecemos pelo princípio, pela decisão de criar a nova moeda, que se voltaria a chamar escudo. O cenário é então este: o governo, perante as dificuldades económicas, decide aceitar o ultimato da Alemanha e declarar a saída do euro, para passar a usar o escudo como moeda nacional.

Manda então imprimir em segredo as notas de escudo e prepara-se para anunciar a grande novidade, numa sexta à noite, à hora do telejornal, quando os bancos já estão fechados (ou decreta um feriado bancário durante vários dias). Nesse fim de semana, todos os bancos fazem horas extraordinárias para distribuir as notas por todos os multibancos, para que a nova moeda possa entrar imediatamente em circulação.

Existem aqui outras alternativas: alguns sugerem que o governo poderia simplesmente reimprimir as notas de euro com a marca do novo escudo, até ter conseguido fazer circular as novas notas. Mas estas são hipóteses que exigem algum nivel de imaginação, uma vez que não é certo que as autoridades do euro aceitassem este estratagema sem retaliar.

O que vai acontecer, em qualquer caso, é que toda a gente descobrirá que se prepara uma nova moeda. Esta operação de lançamento do escudo envolve milhares de pessoas, que transportam e distribuem as notas, e que irão certamente contar às suas famílias. De qualquer modo, todos assistiram nas semanas anteriores a declarações dos ministros a explicar que a situação vai muito mal e que serão necessárias medidas corajosas para salvar a Pátria. Todos assistiram às cimeiras europeias de emergência e perceberam o que se estava a passar. Há segredos que simplesmente não podem ser guardados.

O que farão então as pessoas? Não é preciso adivinhar: vão a correr aos bancos levantar todas as suas economias e guardar as notas de euros. Se não o fizerem, as suas poupanças vão ser totalmente tranformadas em escudos, a um valor nominal que cairá com a forte desvalorização que, afinal, é o objetivo desta operação. Ou seja, as poupanças vão ser tão desvalorizadas quanto a moeda em que passam a estar registadas. Os trabalhadores que depositaram salários e pensões vão ser as primeiras vítimas da nova política. Por isso, vão tentar salvar o que puderem.

Não são só os trabalhadores, diga-se de passagem. Haverá uma enorme fuga de capitais. As empresas, os fundos financeiros, todas as instituições que tiverem dinheiro depositado nos bancos que atuam em Portugal quererão pô-lo lá fora, onde sintam que os seus depósitos ficam protegidos da desvalorização.

Ora, os bancos não querem pagar aos clientes todos os seus saldos, porque esta corrida iria arruiná-los. Não querem nem podem, pois simplesmente não têm o dinheiro para isso-nem há nos bancos notas suficientes para pagar de uma vez toda a sua dívida aos seus depositantes. Os bancos vão por isso fechar as portas quando se generalizar o alarme e o governo terá de chamar o exército para guardar os edifícios. Foi assim na Argentina e na Rússia, foi em todos os casos em que se anunciaram grandes desvalorizações (e nem se tratava de sair de uma moeda e criar outra, o que nunca aconteceu na história da União Europeia), com a agravante de que neste caso a moeda que circulava é retirada para ser substituída por outra, fortemente desvalorizada.
Quem defendeu como alternativa imediata a saída do euro começa então a ter a primeira dificuldade. É que o exército e os bancos vão atuar contra a população. E as primeiras vítimas são os depositantes. Se a desvalorização for de 50%, como calculam alguns economistas que defendem tal alternativa, as poupanças dos trabalhadores irão perder metade do seu valor.

O que é muito provável, em contrapartida, é que durante algum tempo circulem pararelamente notas de euro e de escudo e que esta dupla referência de preços tenha um efeito inflacionário forte, além de conduzir a uma desvalorização exagerada do escudo. Pode ainda criar perturbações nos mercados, com o açambarcamento de produtos, dado o medo em relação à evolução económica. Nesse momento terá lugar uma corrida aos supermecados e haverá uma diminuição de produtos nas prateleiras, até que a nova situação económica tenha assentado. A vida não vai ser fácil depois do euro.


QUANTO É QUE DEVEMOS AO BANCO?


Chega depois o segundo choque. Metade das famílias portuguesas tem uma longa dívida ao banco, que lhes emprestou dinheiro para comprar a casa que será paga durante muitos anos. Estes empréstimos foram feitos em euros. E, no dia da saída do euro, o governo tem duas opções: 1) aceita o que os bancos querem, que estas dívidas das famílias sejam consideradas ao seu valor anterior em euros; ou 2) decreta, para proteger os devedores, que as dívidas sejam transformadas em escudos. Na prática, só terá a ultima alternativa, porque a convulção social agravada pela multiplicação da dívida seria insustentável.

De facto, se o governo permitisse que se mantivessem os créditos em euros (como foram contratados), as pessoas ficariam muito mais acorrentadas à dívida.Imaginemos quem tinha 100 mil euros de dívida, convertidos, ao escudo desvalorizado, numa dívida de 30 mil contos. Se o seu salário antes da desvalorização era de 1000 euros (na nova moeda, 200 mil escudos, ou 200 contos, que depois, com a desvalorização, passam a valer só cerca de 670 euros) e se usava metade para pagar ao banco, precisava antes de cerca de dezassete anos, com a corda ao pescoço, para pagar a dívida. Agora, precisará de vinte e cinco anos com as mesmas dificuldades, dando a mesma metade do seu salário ao banco. Perdeu oito anos.

No segundo caso, em que o governo denomina as dívidas aos bancos em escudos, ao valor anterior à desvalorização, como deve fazer, quem tinha uma dívida de 100 mil euros passa a ter uma dívida de 20 mil contos... que valem cerca de 67 mil euros. O banco ficou a perder. O problema é que, com este processo de desvalorização da dívida, o banco vai à falência, porque criou um buraco gigantesco no seu balanço e as suas dívidas á banca internacional continuam em euros. Não tem forma de pagar as suas dívidas ao estrangeiro.

É por isso que os defensores da saída do euro explicam, honestamente, que será necessário nacionalizar todos os bancos, não necessáriamente para socializar o capital financeiro, mas antes para o salvar. Ora, salvar um banco pode custar muito caro, como já sabemos pelo caso BPN. Porque, se nacionaliza um banco, fica-se com os ativos, mas também com as suas dívidas, que são dívidas a quem nele depositou e dívidas a quem lhe emprestou dinheiro, normalmente a banca estrangeira. Essa dívida está em euros, mas o banco, falido e nacionalizado, vai receber as suas receitas e depósitos em escudos desvalorizados, para continuar a fazer pagamentos no estrangeiro em euros. A dívida pública disparou do dia para a noite porque o Estado ficou com os 175 biliões de dívida dos bancos. Salvar os bancos tem um custo e não é pequeno: as dívidas dos bancos, que antes eram privadas, passam a ser públicas porque foram nacionalizadas.


(Tem continuação)