Aí vivi os meus primeiros 19 anos de vida e transformação, biológica e social.
A partir dos anos 50 comecei a sentir no corpo e na vivência do dia a dia que a única coisa que todos tínhamos( os meninos ricos e pobres como eu) era o Sol. Tudo o mais, mesmo um simples bocado de pão não era igual para todos.
Foram tempos difíceis e cruéis, que marcaram o corpo, e começaram a marcar a consciência, como se fosse uma marca Genética.Acabei a quarta classe tinha 11 anos. Como não havia dinheiro para estudar fui trabalhar.
Dos 11 aos 16 anos fui aprendiz de: Fotógrafo, Mecânico e Serralheiro mecânico.
Decorria o ano de 68 quando me iniciei nos SALÁRIOS EM ATRASO. Nessa época tínhamos a chamada semana-inglesa (trabalhava-se Sábado até ao meio dia). Mas eu e todos os meus camaradas de Oficina fazíamos vigílias as tardes inteiras esperando que o patrão, pagasse a "esmola" que auferíamos ou alguma parte dessa esmola.
A minha sorte foi, chegar a hora de ir para a tropa. Pois, " Fui às sortes e não me safei".
Rumei á guerra colonial sob o lema "O MATAR NÃO ME APRAZ". E desta vez lá me safei, não da exploração e da crise, a qual foi agravada pelo pré miserável que me era imposto.
Regressei da guerra colonial e abracei NOVOS TEMPOS E NOVAS VONTADES. Deixei para trás o Alentejo da minha alma e migrei até á centralidade, perseguindo o sonho de uma vida um pouco melhor.
Mas as dificuldades e a crise teimaram em perseguir-me. Decorria o ano de 73 e eu como muitos outros, todos os dias das nossas vidas, plantávamo-nos junto aos portões da Lisnave/ Margueira, para sermos escolhidos, como se fossemos gado para venda. A escolha era feita pelos empreiteiros que nos alugavam á Lisnave.Os escolhidos, lá iam ser "esfolados" no fundo dos tanques, casa das Máquinas, casa das Bombas, duplos fundos ou noutro qualquer lugar de um qualquer petroleiro ou cargueiro.
Após quatro meses deste ritual diário, fui chamado para fazer exame profissional na escola de formação da Lisnave, fui apurado, e lá me atraquei a ela durante quinze anos.
Mas nos entretantos, chegou a noite desse dia 24 de Abril, que veio abrir os portões da esperança, rumo a uma vida sem crise permanente.
Nessa época no Estaleiro e por todo o país, as pessoas dialogavam mais, mobilizavam-se, organizavam-se e lutavam por ser cidadãos de corpo inteiro.
Nesse turbilhão de novos acontecimentos, de manifestações, assembleias e greves, lutava-se por direitos económicos, sociais mas também por direitos políticos.
Os meses passavam como se fossem relâmpagos. E a crise na minha e na vida de milhões de outros iguais, apenas se atenuou um pouquinho.
Acabado o Verão Quente tão cheio de luz e esperança, eis que chegou o Outono cinzento e negro impondo a tempestade de Novembro e com ela o Sonho Lindo Acabou.Os donos de Portugal juntaram todos os cacos, e refizeram o "POTE" (governo) que durante os últimos 35 anos tem espoliado os bens públicos e sugado os frutos do trabalho dos milhões de Portugueses.
Eu e a crise, não nos vemos livres um do outro, mesmo vivendo á rasca há longos anos.
De 82 a 85 os tempos foram negros e com a onda do FMI desencadeou-se o "TSUNAMI" dos despedimentos colectivos na Lisnave, de onde fui arrastado para os subterrâneos, não da liberdade, mas para o depósito do desemprego.
Durante algum tempo "andei por aí", não como o outro, mas como milhares de enrascados jogados para o desemprego.
" MUDAR DE VIDA" na caminhada da vida andei por outro portos, até que chegou 2009, e a senhora crise, que sempre carreguei às costas, fez-me tropeçar e cair, novamente no buraco do desemprego.
Trago aqui esta resumida história, de um entre milhões de indivíduos, que metafísica e estatisticamente somos um número.
Biologicamente somos um organismo.
Cientificamente somos 99,99% de genes compartilhados.
Filosoficamente somos um ser humano único, mas distinguível da espécie a ser estudada.
Socialmente somos o produto da Sociedade.
Eis o que sou e são os milhões de Portugueses, produto da sociedade capitalista ( não fruto do destino), que quero derrotar e transformar numa nova sociedade, o Socialismo científico.
Francisco Tomás



