sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uma história de vida entre tantas iguais!

Sou um cidadão do mundo, nascido em Beja, Baixo Alentejo em plena Planície Dourada.
Aí vivi os meus primeiros 19 anos de vida e transformação, biológica e social.
A partir dos anos 50 comecei a sentir no corpo e na vivência do dia a dia que a única coisa que todos tínhamos( os meninos ricos e pobres como eu) era o Sol. Tudo o mais, mesmo um simples bocado de pão não era igual para todos.
Foram tempos difíceis e cruéis, que marcaram o corpo, e começaram a marcar a consciência, como se fosse uma marca Genética.
Acabei a quarta classe tinha 11 anos. Como não havia dinheiro para estudar fui trabalhar.
Dos 11 aos 16 anos fui aprendiz de: Fotógrafo, Mecânico e Serralheiro mecânico.
Decorria o ano de 68 quando me iniciei nos SALÁRIOS EM ATRASO. Nessa época tínhamos a chamada semana-inglesa (trabalhava-se Sábado até ao meio dia). Mas eu e todos os meus camaradas de Oficina fazíamos vigílias as tardes inteiras esperando que o patrão, pagasse a "esmola" que auferíamos ou alguma parte dessa esmola.
A minha sorte foi, chegar a hora de ir para a tropa. Pois, " Fui às sortes e não me safei".
Rumei á guerra colonial sob o lema "O MATAR NÃO ME APRAZ". E desta vez lá me safei, não da exploração e da crise, a qual foi agravada pelo pré miserável que me era imposto.
Regressei da guerra colonial e abracei NOVOS TEMPOS E NOVAS VONTADES. Deixei para trás o Alentejo da minha alma e migrei até á centralidade, perseguindo o sonho de uma vida um pouco melhor.
Mas as dificuldades e a crise teimaram em perseguir-me. Decorria o ano de 73 e eu como muitos outros, todos os dias das nossas vidas, plantávamo-nos junto aos portões da Lisnave/ Margueira, para sermos escolhidos, como se fossemos gado para venda. A escolha era feita pelos empreiteiros que nos alugavam á Lisnave.Os escolhidos, lá iam ser "esfolados" no fundo dos tanques, casa das Máquinas, casa das Bombas, duplos fundos ou noutro qualquer lugar de um qualquer petroleiro ou cargueiro.
Após quatro meses deste ritual diário, fui chamado para fazer exame profissional na escola de formação da Lisnave, fui apurado, e lá me atraquei a ela durante quinze anos.
Mas nos entretantos, chegou a noite desse dia 24 de Abril, que veio abrir os portões da esperança, rumo a uma vida sem crise permanente.
Nessa época no Estaleiro e por todo o país, as pessoas dialogavam mais, mobilizavam-se, organizavam-se e lutavam por ser cidadãos de corpo inteiro.
Nesse turbilhão de novos acontecimentos, de manifestações, assembleias e greves, lutava-se por direitos económicos, sociais mas também por direitos políticos.
Os meses passavam como se fossem relâmpagos. E a crise na minha e na vida de milhões de outros iguais, apenas se atenuou um pouquinho.
Acabado o Verão Quente tão cheio de luz e esperança, eis que chegou o Outono cinzento e negro impondo a tempestade de Novembro e com ela o Sonho Lindo Acabou.
Os donos de Portugal juntaram todos os cacos, e refizeram o "POTE" (governo) que durante os últimos 35 anos tem espoliado os bens públicos e sugado os frutos do trabalho dos milhões de Portugueses.
Eu e a crise, não nos vemos livres um do outro, mesmo vivendo á rasca há longos anos.
De 82 a 85 os tempos foram negros e com a onda do FMI desencadeou-se o "TSUNAMI" dos despedimentos colectivos na Lisnave, de onde fui arrastado para os subterrâneos, não da liberdade, mas para o depósito do desemprego.
Durante algum tempo "andei por aí", não como o outro, mas como milhares de enrascados jogados para o desemprego.
" MUDAR DE VIDA" na caminhada da vida andei por outro portos, até que chegou 2009, e a senhora crise, que sempre carreguei às costas, fez-me tropeçar e cair, novamente no buraco do desemprego.
Trago aqui esta resumida história, de um entre milhões de indivíduos, que metafísica e estatisticamente somos um número.
Biologicamente somos um organismo.
Cientificamente somos 99,99% de genes compartilhados.
Filosoficamente somos um ser humano único, mas distinguível da espécie a ser estudada.
Socialmente somos o produto da Sociedade.
Eis o que sou e são os milhões de Portugueses, produto da sociedade capitalista ( não fruto do destino), que quero derrotar e transformar numa nova sociedade, o Socialismo científico.

Francisco Tomás

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A luta entre contrários



Acredito que sábado dia 12 de Março vá sair às ruas de várias cidades portuguesas, milhares de jovens que, desde que nasceram, ainda não tiveram a simples oportunidade de experimentar um emprego.
Acredito que vão sair às ruas milhares de outros jovens, que desde que começaram a trabalhar, não conseguem sair da precariedade do emprego que se abate sobre eles limitando-os em todos os seus direitos enquanto cidadãos e trabalhadores.
Acredito que vão sair às ruas todos estes precários e muitos outros que, embora trabalhem com emprego dito estável, de estável pouco têm devido às leis que vão sendo vomitadas pelo governo e patrões.
Acredito que vão sair às ruas muitos dos700 mil precários inscritos no IEFP, tenham eles ou não subsídio de desemprego.
Acredito que vão sair às ruas milhares de cidadãos, para gritar a sua revolta contida que após uma vida de trabalho e sacrifício, só conseguiram amealhar sofrimento, doença e miséria para além de receios constantes de ficar sem o emprego.
Acredito que vão sair às ruas milhares de funcionários Públicos que foram atraídos e enganados para um emprego que lhes garantiram ao longo de uma vida que seria estável, mas que afinal é tão precário como os precários capitalistas.
Acredito que vão sair às ruas milhares de cidadãos imigrantes, legais ou ilegais, porque a precariedade é igual para todos.
Acredito que vão sair às ruas cidadãos que se revoltam por serem tratados como números, como se não tivessem vida, como se não tivessem sonhos, como se não tivessem família, como se não tivessem cidadania, como se não tivessem afectos, como se não tivessem idade, como se não tivessem pensamentos etc.
Acredito que vão sair às ruas milhares de vítimas da pobreza, contrários da riqueza.
Acredito que vão sair às ruas milhares de cidadãos com vidas miseráveis que são o contrário da opulência capitalista.
Acredito que vão sair às ruas muitos milhares de cidadãos sofridos, cansados de serem explorados e dominados pelos vis interesses dos capitalistas e dos seus moços de recado, instalados nos vários e sucessivos governos pós 25 de Abril.
Acredito que vamos ser muitos milhares que nas ruas de Portugal, já no dia 12 de Março, vamos gritar a plenos pulmões que estamos fartos das vidas de miséria e que queremos manter a nossa dignidade mas com todos os direitos de cidadãos de corpo inteiro.
Acredito que as Manifestações de dia 12 de Março vão ser o aquecimento para as de dia 19 de Março e caminharmos até onde as nossas consciências nos permitirem.
Disse o cantor “Anda, vamos embora, que o esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”
Francisco Tomás

Seixal, 07 de Março de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Porque silenciam a Islândia?



Há dias recebi por correio electrónico um artigo, que alterei ao lembrar-me de partilhar com todos vós, já que os jornalistas da nossa praça não o fazem, assim serão mais a ler e a ter que pensar nesta, como dizia uma personagem portuguesa”Política porca, porque políticos Porcos, fazem da política porca.”

Estamos neste estado lamentável, em parte, por causa da corrupção interna – pública e privada com incidência no sector bancário – e pelos juros usurários que a Banca Portuguesa, europeia e outros especuladores nos cobram.
Sócrates foi dizer à Sra. Merkel – a chanceler do Euro – que já tínhamos tapado os buracos das fraudes e que, se fosse preciso, nos punha a pão e água para pagar os juros ao valor que ela quisesse.
Por isso, acho que será a altura de falar na Islândia, na forma como este país deu a volta à bancarrota, e porque não interessa a certa gente que se fale dele).
Não é impunemente que não se fala da Islândia (o primeiro país a ir à bancarrota com a crise financeira) e na forma como este pequeno país perdido no meio do mar, têm vindo a dar a volta à crise.






Ao poder económico mundial, e especialmente o Europeu, tão proteccionista do sector bancário, não interessa dar notícias de quem lhes bateu o pé e não alinhou nas imposições usurárias que o FMI lhe impôs para a” ajudar”.
Ao poder económico detentor dos meios de comunicação social e de massas, sejam eles televisivos ou jornalísticos, também não interessa divulgar, a forma como a Islândia têm vindo a responder à crise, não vão os cidadãos fazer pagar a dita crise.
Em 2007 a Islândia entrou na bancarrota por causa do seu endividamento excessivo e pela falência do seu maior Banco que, como todos os outros, se afogou num oceano de crédito mal parado. Exactamente os mesmo motivos que tombaram com a Grécia, a Irlanda e Portugal.
A Islândia é uma ilha isolada com cerca de 320 mil habitantes, e que durante muitos anos viveu acima das suas possibilidades graças a estas “macaquices” bancárias, e que a guindaram falaciosamente ao 13º no ranking dos países com melhor nível de vida (numa altura em que Portugal detinha o 40º lugar).
País novo, ainda não integrado na UE, independente desde 1944, foi desde então governado pelo Partido Progressista (PP), que se perpetuou no Poder até levar o país à miséria.
Aflito pelas consequências da corrupção com que durante muitos anos conviveu, o PP tratou de recorrer ao FMI em busca de ajuda. Claro que a usura deste organismo não teve qualquer compaixão, e a tal “ajuda” ir-se-ia traduzir em empréstimos a juros elevadíssimos (começariam nos 5,5% e daí para cima), que, feitas as contas por alto, se traduziam num empenhamento das famílias islandesas por 30 anos, durante os quais teriam de pagar uma média de 350 Euros / mês ao FMI. Parte desta” ajuda” seria para “tapar” o buraco do principal Banco islandês (BPN) lá do sítio.
Perante tal situação, os cidadãos mexeram-se, apareceram movimentos cívicos despojados dos velhos políticos “porcos” e corruptos, com uma ideia base muito simples: os custos das falências bancárias não deveriam ser pagos pelos cidadãos, mas sim pelos accionistas dos Bancos e seus credores. E todos aqueles que assumiram investimentos financeiros de risco deviam agora aguentar com os seus próprios prejuízos.
O descontentamento foi tal que o Governo foi obrigado a efectuar um referendo, tendo os islandeses, com uma maioria de 93%, recusado a assumir os custos da má gestão bancária e a pactuar com as imposições avaras do FMI.
Num instante, os movimentos cívicos forçaram a queda do Governo e a realização de novas eleições.
Foi assim que em 25 de Abril (esta data tem mística) de 2009, a Islândia foi a eleições e recusou votar em partidos que albergassem a velha, caduca e corrupta classe política que os tinha levado àquele estado de penúria. Um partido renovado (Aliança Social Democrata) ganhou as eleições, e conjuntamente com o Movimento Verde de Esquerda, formaram uma coligação que lhes garantiu 34 dos 63 deputados da Assembleia). O partido do poder (PP) perdeu em toda a linha.
Daqui saiu um Governo totalmente renovado, com um programa muito objectivo: aprovar uma nova Constituição, acabar com a economia especulativa em favor de outra produtiva e exportadora, e tratar de ingressar na UE e no Euro logo que o país estivesse em condições de o fazer, pois numa fase daquelas, ter moeda própria (coroa finlandesa) e ter o poder de a desvalorizar para implementar as exportações, era fundamental.
Foi assim, que se iniciaram as reformas de fundo no país, com o inevitável aumento de impostos, amparado por uma reforma fiscal severa. Os cortes na despesa foram inevitáveis, mas houve o cuidado de não “estragar” os serviços públicos tendo-se o cuidado de separar o que o era de facto, de outro tipo de serviços (como parcerias públicas/privado) que haviam sido criados ao longo dos anos apenas para serem amamentados pelo Estado.
As negociações com o FMI foram duras, mas os islandeses não cederam, e conseguiram os tais empréstimos que necessitavam a um juro máximo de 3,3% a pagar nos tais 30 anos. O FMI não tugiu nem mugiu porque queria era receber os seus lucros, mesmo que moderados. Sabia que teria de ser assim, ou então a Islândia seguiria sozinha e, atendendo às suas características, poderia transformar-se num exemplo mundial de como sair da crise sem estender a mão à Banca internacional. Um exemplo perigoso demais (pensaram eles).
Graças a esta política reformista mas de não pactuar com os interesses descabidos do neo
O Governo islandês (comandado por uma senhora de 66 anos) prossegue a sua caminhada, tendo conseguido sair da bancarrota e preparando-se para dias melhores. Os cidadãos estão com o Governo porque este não lhes mentiu, cumpriu com o que o referendo dos 93% lhe tinha ordenado, e os islandeses hoje sabem que não estão a sustentar os corruptos banqueiros do seu país nem a cobrir as fraudes com que durante anos acumularam fortunas monstruosas. Sabem também que deram uma lição à máfia bancária europeia e mundial, pagando-lhes um juro justo pelo que pediram, e não alinhando em especulações. Sabem ainda que o Governo está a respeitar a vontade dos cidadãos, e aquilo que é sector público necessário à manutenção de uma assistência e segurança social básica, não foi tocado.
Os islandeses sabem para onde vai cada cêntimo dos seus impostos.
Não tardarão meia dúzia de anos, para que a Islândia retome o seu lugar nos países mais desenvolvidos do mundo.
O actual Governo Islandês, parece que não tem feito jogadas nas costas dos seus cidadãos. Parece que está a cumprir, de A a Z, com as promessas que fez e com a vontade da esmagadora maioria dos Islandeses.
Se este exemplo fosse divulgado, certamente que serviria para esclarecer, pelo menos, algumas pessoas que fossem, deste pobre país aqui plantado no fundo da Europa, que por cá andam sem eira nem beira ao sabor dos acordos milionários que os governantes acertam com o capital agiota internacional, e onde muitos cidadãos passam fome para que as contas dos corruptos, agiotas e exploradores se encham até abarrotar, já seria um bom trabalho jornalístico, informativo, ético, clarificador e corajoso, preenchendo todos os requisitos de uma boa notícia.
Eu, pessoalmente dou por bem empregue o tempo que levei a escrever este trabalho que não vai certamente ter o impacto que teria, um, dirigido às grandes massas dos cidadãos Portugueses.
Francisco Tomás
Cruz de Pau, 20/05/2011