sábado, 15 de junho de 2013

A MANIPULAÇÃO GENÉTICA E O CAPITAL!


 A manipulação genética despertou em mim a curiosidade e o interesse, para me lançar num trabalho de pesquisa e reflexão sobre o ADN. Nomeadamente o que é o ADN? Como surgiu e quando surgiu o ADN? Quais os fins dados ao ADN? Que perspectiva de usos futuros com o ADN?

Eu, pessoalmente, tentei reunir o máximo de informação, em livros, enciclopédias e em vários sítios na internet. Vou partir para a manipulação, não do ADN, mas da informação recolhida e manifestar o meu pensamento quanto às manipulações reais do ADN pelas comunidades científicas.

O Que é o ADN?

O ADN é uma molécula que existe dentro das células de todos os seres vivos, bactérias, fungos protozoários, plantas e animais. Digamos que o ADN é o SISTEMA OPERATIVO dos seres vivos. É o sistema que controla toda a informação genética com todas as características de cada ser vivo. Segundo os cientistas, O ADN contem as informações necessárias para formar e dirigir todo o processo de reprodução de um qualquer ser vivo. Ele é como um código secreto que ao ser decifrado pela célula produz todos os componentes que fazem parte de todo e qualquer ser vivo.

Todos nós, seres humanos, mas também todos os outros seres vivos sejam eles microscópicos ou gigantescos, frágeis ou robustos. Todos possuímos um património genético, o nosso próprio ácido desoxirribonucleico (ADN), o que nos torna únicos. É esta molécula, (ADN), que faz de nós quase iguais, quase gémeos mas também todos diferentes, únicos. A sua composição química e estrutura são elementos muito importantes para a biologia molecular. Sabe-se hoje que todas as informações que determinam as formas e as funções dos seres vivos estão armazenadas nos cromossomas, estruturas enoveladas que existem nos núcleos de todas as células. Cada espécie tem um número de cromossomas, que é o seu património genético. A espécie humana, por exemplo, possui 46 cromossomas.

A maquinaria da hereditariedade, nos cromossomas é constituída pelos ácidos desoxirribonucleicos (ADN), que é o principal e o ribonucleico (RNA). O ADN é capaz de produzir cópias de si mesmo no momento da reprodução celular, passando intacto para a célula filha e levar consigo as informações da célula mãe.

O ADN é formado por longas cadeias de nucleiotídeos. O nucleiotídeo consiste na função de uma molécula de um açúcar (desoxirribose) com uma molécula de ácido fosfórico e uma molécula de uma base nitrogenada (adenina, guanina, citosina ou timina). As cadeias do ADN enrolam-se em espiral dupla de tal forma que as bases se emparelham. A sequência de bases três a três forma um código que regula a síntese das proteínas, individualmente, sendo os constituintes mais importantes dos seres vivos.

Podemos afirmar que o ADN é quem garante que um cavalo pareça um cavalo e uma gata pareça uma gata etc.

Mas, como explicar as variações das espécies? As proteínas de todos os seres vivos são constituídas por cadeias longas de 20 aminoácidos, o que difere umas das outras é a posição de cada aminoácido na sequência da cadeia. Cada três pares de bases do ADN codificam um aminoácido da cadeia proteica. Vários conjuntos de três pares codificam uma proteína inteira. E cada proteína é responsável por uma característica da espécie.

Pinceladas de História

Em 1856, o monge e botânico austríaco Gregor Mendel descreveu as leis básicas da hereditariedade. Ele fê-lo a partir do estudo sobre sucessivas gerações de ervilhas verdes e amarelas. Ele concluiu que existiam elementos autónomos que controlavam as características hereditárias. Ele foi na realidade o pai da genética, mas a sua obra não foi levada em conta até ao início do século XX.

Juann Mischer, em 1869, analisou pus humano evidenciando o ADN. Mas a evolução quanto ao perceber e conhecer mais em profundidade levou Ostward Avery a “descobrir que o material genético de uma bactéria podia alterar a descendência de outra. Chegados ao ano de 1953, o biólogo James Watson e o bioquímico Francis Crick, desvendaram o segredo de como é feita a molécula de ADN. Eles viram que o ADN tem a forma de uma dupla hélice em espiral, com apenas quatro peças, revelando uma simplicidade surpreendente.

Neste caminho imparável, o químico Paul Berge em 1960 conseguiu clonar ADN.

Em 1970 os cientistas “ descobriram” como cortar e pegar fragmentos de ADN, o que abriu as portas para os grandes avanços posteriores da engenharia genética.

Alteradas as normas, em 1970, impostas pelo Instituto Nacional de Saúde dos EUA sobre investigações com ADN recombinante. Um ano depois foi construída a primeira fábrica industrial para produzir insulina.

Em 1990 realizou-se o primeiro procedimento de uma terapia genética. O paciente foi uma menina de quatro anos com uma grave deficiência imunológica. Está viva e livre de parte da doença.

Decifrado o primeiro Genoma de um ser vivo, em 1995, o da bactéria causadora da meningite e infeções no ouvido e nasceu a primeira ovelha transgénica.

A comunidade científica em 1999 dera mais um passo no caminho da clarificação do ADN e decifraram o primeiro cromossoma humano, o 22.

               

A Dialéctica da Evolução

  Chegados a 2001, conclui-se que grande parte do material genético humano deriva de micro organismos primitivos como vírus e bactérias. Há 113 genes humanos que provem directamente das bactérias. E, descobriu-se que 99,99% dos genes nos seres humanos é compartilhado entre si. Estes factos vêem demonstrar mais uma vez a justeza da teoria da evolução de Charles Darwin.

Craig Venter cientista norte-americano concluiu não haver genes suficientes para se afirmar a existência de um único segmento de ADN que justifique a homossexualidade, o alcoolismo ou a agressão.

Os seres humanos não são pois prisioneiros dos seus genes. Somos, isso sim, formados nas circunstâncias das nossas vidas e esses factos são cruciais na formação das nossas personalidades. O meio ambiente natural, o mundo que rodeia e envolve cada ser humano é fundamental na sua evolução.

A diversidade do género humano tem que ser procurada no meio ambiente e nas interações humanas e não na genética.

A genética, segundo Craig Venter, baniu de vez o conceito de Raça. Negros, brancos e asiáticos diferem tanto entre si quanto dentro das suas próprias etnias. As diferenças biológicas são ínfimas entre nós. Essencialmente somos todos gémeos.

Usos e Abusos do ADN!

De uma gota de sangue, de um fio de cabelo ou de um osso pode ser retirado ADN. Esse segmento de ADN pode ser multiplicado milhares de vezes até se produzir ADN suficiente para a identificação de casos de paternidade, crimes sexuais, crimes judiciais etc.

Os estudos do ADN já levaram á reprodução de órgãos, á reprodução total de animais.

Segundo o laboratório Diagenix, o exame de paternidade é um dos recursos mais utilizados pela justiça, a partir de técnicas que empregam o exame do ADN. Isso pode ser feito em situações tais como:

Estando o bebé ainda no útero (retiram um pouco de líquido amniótico para teste; Após o nascimento do bebé, retiram uma amostra da placenta ou uma amostra de sangue; Sendo o pai vivo (em ambos os casos acima descritos) retiram uma amostra de sangue e fazem a comparação do bebé e do pai; Sendo o pai falecido, podem extrair amostra do ADN a partir da medula de um osso longo, como o fémur, ou um fio de cabelo e fazem a comparação.

O ADN é usado ainda e em larga escala na manipulação de alimentos.

Os transgénicos, hoje em dia, invadem países, continentes e o mundo.

Evolução, e Transformação Naturais!

Com o avanço do projecto Genoma, poderemos prever evoluções para tratamentos mais eficazes e controlo médico sobre doenças crónicas como a diabetes, hemofilia etc.

Terapia genética mais abrangente e evolução no ramo dos fármacos.

A manipulação do ADN assim como a utilização de qualquer nova tecnologia deve obedecer aos interesses dos cidadãos, da natureza e condicionar os usos que visam o lucro, lançando os cidadãos e a natureza nos desequilíbrios.

As tentativas dos homens com miolos e olhos feitos de cifrões, que tentam, pagando a cientistas, fazer seres sub-humanos, metade homem e metade chimpanzé, devem ser condenadas.

As utilidades de um ser assim transformado seriam para a “ realização de trabalhos humildes” ou como “ banco de órgãos para transplante”.

Tudo indica que se trata de um balão de ensaio para acostumar a humanidade com a absurda ideia de usar a engenharia genética para produzir raças ou subespécies mentalmente inferiores que sirvam para o trabalho, ao lado de uma raça de “superiores” destinada a dirigir o mundo, ao prazer e ao ócio.

É um velho sonho do capitalismo dispor de trabalhadores incapazes de praticar lutas pelos direitos, geneticamente programados para aceitar docilmente a exploração.

Mas, parece que, os especialistas em genética não avalizam a possibilidade deste cruzamento, homem macaco.

Espera-se que a esmagadora maioria dos cientistas que pesquisam a genética, que o seu interesse deva ser o aperfeiçoamento da espécie humana, a transformação da natureza viva, em benefício da humanidade.

A natureza leva 25 milhões de anos de evolução a partir de um primata (Driopiteco)

Para produzir a forma mais aperfeiçoada da matéria vivente, o Homo Sapiens. É o animal mais perfeito, não apenas porque é o único que tem consciência, fala e criou uma civilização científica e tecnológica. Do ponto de vista anatómico também o mais perfeito. A mão humana é infinitamente mais adaptada para produzir instrumentos que a de qualquer macaco.

Uma experiência de manipulação dos genes humanos com os de macacos, teria resultados imprevisíveis sobre tal ou qual características humanas. Por outro lado, a doação de órgãos por seres humanos pode perfeitamente atender às necessidades dos transplantes. Por trás da criação de um ser sub-humano, estariam ou estarão as intenções de “criar” seres anatomicamente idênticos aos humanos mas com cérebros próximos ao do macaco. Assim os usurpadores das mais-valias do planeta teriam ao seu serviço trabalhadores capazes de trabalhar, mas incapazes de pensar, de interrogar, de questionar, de contradizer, de lutar pela resolução das suas necessidades e querer “ Fazer o Que Ainda não Foi Feito”.

Hitler achou que os alemães eram os “superiores eleitos” e tentou escravizar os “povos inferiores”. Não deu certo. Posteriormente surgiu a ideia de criar os “inferiores” em laboratório.

Fica-nos a esperança de que a humanidade se incumbirá de sepultar tal ignóbil ambição.         






Conclusão

Esta pesquisa deu-me imenso gosto realizar. Aumentou e cimentou os meus conhecimentos, juntou mais argumentos e somou os científicos aos empíricos.

O resultado é maior solidez de conhecimentos gerais e maior desenvoltura nas consultas de sítios vários na internet, enciclopédia e livro do genoma.

Com o avanço do projecto Genoma, a humanidade poderá ter esperanças, (mas sempre moderadas devido aos interesses económicos, religiosos e ignorantes), positivas no alcance de tratamentos mais eficazes e de controlo de doenças crónicas como a diabetes, hemofilia etc.

Para além da terapia genética, poderemos prever também evolução no ramo dos fármacos. Assim, e concluindo este trabalho de pesquisa sobre o ADN, sabendo nós que a ciência está em constante desenvolvimento, novas leituras, sobre todos os aspectos da vida material e do genoma em particular são de esperar.

Tais leituras poderão fazer com que “o mundo pule e avance” beneficiando as vidas dos seres vivos, nomeadamente dos seres humanos.

O que hoje nos parece impossível pode a qualquer momento ser visto por um ou mais cientistas e um novo rumo a uma saúde melhor para a nossa espécie, pode ser aberto.

Resta-nos pressionar os governos dos países para não permitir que os poderes económicos tomem conta dos saberes para realizar lucros fabulosos tornando os avanços positivos inacessíveis aos cidadãos que vivem e vegetam com falta de meios de sobrevivência.

Fontes:

v  Genoma humano

v  O ADN Linguagem da vida

v  O que é o ADN

v  Espaço Ciência Viva

v  DNA-Biologia e – escola

v  Revista USP-Manipulando genes em bus….

v  Todos somos diferentes e isso está presente…



Francisco Tomás

sábado, 8 de junho de 2013

A LUTA MAIOR DE NELSON MANDELA!



 Neste momento em que , Nelson  Mandela, luta pela  sua sobrevivência , quero deixar aqui a minha solidariedade com a sua luta, apesar da ameaça dos anos que carrega e das maselas das feridas que lhe marcam o corpo e a alma, devido ás punições impostas pelos carrascos do antigo regime .

Deixo este seu  marcante poema .

 Nelson Mandela

Do avesso desta noite que me encobre,
Preta como a cova, do começo ao fim,
Eu agradeço a quaisquer deuses que existam,
Pela minha alma inconquistável.

Na garra cruel desta circunstância,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.

Além deste lugar de ira e lágrimas
Avulta apenas o horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará destemido.

Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.

(Tradução livre) 



 Francisco tomás
Seixal 08/06/2013




quarta-feira, 5 de junho de 2013

A DIVIDADURA

CAPÍTULO 4

 

 

 

A TRADIÇÃO BÍBLICA DE CANCELAMENTO DAS DÍVIDAS


Durante séculos, a lei e a religião protegeram os devedores da expropriação que os credores reclamavam. propriedades aos devedores.Os primeiros livros da Bíblia, e antes deles a tradição da Mesopotâmia, do Egito e de outras regiões medeterrânicas, impunham o perdão das dívidas todos os sete anos, bem como a devolução das propriedades aos devedores.

As dívidas são tão antigas como a relação económica entre as pessoas. E a negociação e cancelamento das dívidas também. A Bíblia chamava-lhe o perdão da dívida: «No fim de cada período de sete anos, deves perdoar as dívidas. Será da seguinte maneira: todo aquele que tiver emprestado alguma coisa a alguém deve-lhe perdoar e não exigir a restituição. É um ano de perdão em honra do Senhor. Aos estrangeiros podes exigir o pagamento da dívida. Ao teu compatriota é que lhe deves perdoar o que lhe tiveres emprestado» (Deuteronómio 15:1). Esta é a recomendação de um dos primeiros livros do Antigo Testamento: perdoa a dívida, mas apenas se for de um conterrâneo.

A lei que impõe o cancelamento das dívidas devia ser lida e aplicada de sete em sete anos: «Moisés escreveu esta lei e entregou-a aos sacerdotes de Levi, que transportam a Arca da Aliança do Senhor, e aos anciãos de Israel, com a seguinte ordem: "No fim de cada período de sete anos, isto é, no ano em que se devem perdoar as dívidas, durante a festa das Tendas (...) devem ler publicamente esta lei diante de todos"» (Deuteronómio 31:10). Lida e repetida em público, para que todos a saibam e lhe obedeçam.

O perdão das dívidas significava também  o fim da escravidão dos que tinham pago a sua ruína com a sua liberdade: também esses deviam voltar a casa, libertos das cadeias da servidão, readquirindo a sua terra. «Como se disse, neste ano de Jubileu, todos voltarão a ser donos do que era seu», escreveu-se noutro dos livros do Antigo Testamento (Levítico, 25:10). O Jubileu era precisamente a festa, comemorada depois de sete períodos de sete anos, em que se garantia a todos a devolução das propriedades que tinham perdido por força das sua dívidas.

Estes livros do Antigo Testamento terão sido escritos  pelos séculos VI e V da nossa era (frequentemente designada por a.C., antes de Cristo, ou também por a.e.c., «antes da nossa era comum»). Representam a sabadoria, os costumes e o consenso cultural expresso nas normas religiosas de tribos que ocupavam a Palestina e as suas vizinhanças, no que hoje chamamos o Médio Oriente, do Mediterrâneo à Mesopotâmia. Terras de pastores e de camponeses, onde se forjaram alguns dos primeiros Estados, com os seus poderes e as suas leis. Foi nessas terras que se inventou a escrita.

É graças a essa escrita que temos alguns conhecimentos de como viviam estas sociedades. Michael Hudson, actualmente professor de economia em Kansas City e que foi analista finançeiro em Wall Street, dedicou-se a estudá-las quando era professor de arqueologia da Idade do Bronze (período que vai aproximadamente de 4000 a 1200 a.e.c.), muito antes de terem sido escritos os livros bíblicos. A sua investigação levou-o ao museu Peabody, em Harvard, nos estados Unidos, onde estão depositados muitos documentos da história da Mesopotâmia. O que descobrio foi que a libertação das dívidas estava por todo o lado e desde sempre. era uma instituição social, uma cultura, em diversas sociedades do Médio Oriente.

OS REIS CONTRA A DÍVIDA


 Durante dois milénios, sucessivas proclamações reais na mesopotâmia determinaram o cancelamento das dívidas e a restauração dos direitos e das propriedades dos devedores: entre os anos de 2400 e 1600 a.e.c., há registo de pelo menos 28 decisões dos reis para proteger os devedores. Hammurabi, rei da Babilónia, a cidade-Estado mais poderosa da região no seu tempo (cerca de 1700 a.e.c.), determinou a elaboração de um Código legal que estabelecia a libertação dos seus servos por dívidas depois de três anos de submissão, ou o fim das dívidas em períodos de seca ou de cheias. Na festa do Ano Novo, que se comemorava na Primavera, as placas de barro que registavam as dívidas eram destruídas. O mesmo tipo de éditos foi encontrado nos documentos históricos da Judeia,do Egito, da Grécia. Um deles está reproduzido na figura seguinte.

A probalidade da intervenção real para libertar os escravos por dívidas era tão forte que se faziam contratos de venda de escravos incluindo claúsulas de indemnização aos compradores para o caso de eles serem entretanto perdoados pelo rei. Ora, porque razão eram os reis tão diligentes a salvar os devedores? O que é que tinham a Mesopotâmia, a Judeia e o Egito em comum que determinasse tais intervenções misericordiosas em todas esta regiões? A resposta é simples: o interesse e a vantagem mútua.

O rei tinha sempre duas vantagens na anulação das dívidas e na libertação destes escravos. A primeira vantagem era restringir a acumulação de propriedade pela aristocracia, em particular de terras: a devolução das terras confiscadas aos devedores impedia a constituição de grandes propriedades fundiárias e a concentração do poder que lhes estava associado. E uma aristocracia fraca significava um rei forte. A segunda vantagem deste processo de anulação das dívidas era a convocação dos camponeses, assim libertos, para o exército real. De facto, alguns dos éditos de cancelamento das dívidas foram proclamados por reis que tinham subido ao trono há pouco tempo,sobretudo no fim do primeiro ano de reinado, e que precisavam de construir o seu poder, ou que estavam a preparar uma campanha militar. Como tantos outros antes e depois dele, o faraó Bakenranef, do Egito, decretou em 720a.e.c. o fim das dívidas que não estivessem comprovadas por contratos escritos, porque estava a ser ameaçado pela vizinha Etiópia e precisava de soldados.

A restauração da ordem económica com o cancelamento das dívidas permitia não só afirmar o ritual majestático- o rei decidia da servidão ou libertação dos devedores- como ainda manter uma estrutura social sem demasiadas ruturas. Assim, durante pelo menos dois milénios da Idade do Bronze, as dívidas foram periodicamente anuladas na Mesopotâmia, bem como nas terras vizinhas.


 A Bíblia é herdeira dessa tradição e os textos que foram citados ni início deste capípulo, bem como a genaralidade dos primeiros livros do Antigo Testamento, demonstram a força da tradição moral e do mandado legal que obrigavam ao perdão das dívidas cada sete anos. A restituição das propriedades e do direito do devedor era imperativo legal e religioso. Ao estudar esta documentação, Hudson afirma mesmo que a ideia de redenção dos cristãos se baseava na tradição de libertação dos laços de escravatura por dívida: a palavra «redenção» quer precisamente dizer que se recupera algo que se perdeu ou alienou. A palavra suméria para a recuperação da dívida era «amargi», que queria dizer «recuperar a liberdade», «voltar à mãe».

(TEM CONTINUAÇÃO)