terça-feira, 5 de outubro de 2010

Desemprego, Fome e Miséria è Adubo para o Analfabetismo!




Um olhar retrospetivo pela história da educação em Portugal aconselha, certamente qualquer cidadão no geral e aos que tem, ou deviam ter, responsabilidades na definição da política educativa, que o analfabetismo é um problema da sociedade no seu todo e exige medidas ininterruptas para que o mal seja erradicado. O analfabetismo, ou os analfabetismos, não se resolvem, numa penada, não se resolvem só com boas vontades e não se resolvem principalmente com meia dúzia de pessoas e á escala de um só país.
É preciso conhecimento objetivo do mal, é preciso ter um levantamento objetivo das raízes do problema, conhecer em toda a dimensão do mesmo: os crónicos, os estruturais, e  os históricos. Olhando para trás, para a nossa história e sobretudo para a história da educação na sociedade portuguesa, nomeadamente, a escolaridade obrigatória, que apesar de consagrada legalmente desde 1835, continua por cumprir.
Muitos cidadãos pensam que a escolaridade obrigatória é recente, mas ela já tem 175 anos de idade e ainda hoje um em cada dez Portugueses, não sabem ler nem escrever. Porque razão este problema virou quase endémico no país? 
Segundo consta, a Carta Constitucional (art.145,30º) já garantia aos cidadãos a instrução primária gratuita, tal como nos dias de hoje a Constituição da República "democrática". Agora , para a escolaridade básica, no (art.74,3.a). A incapacidade dos estados, desde a monarquia, passando pela primeira República, o Estado Novo (fascista) e a segunda República, agora democrática, reside,a meu ver, principalmente nas questões económicas e sociais em que vive a esmagadora maioria dos cidadãos.
Ontem como hoje, os cidadãos, na sua esmagadora maioria, vivem no limiar da pobreza e este estado de miséria económica e social afeta as famílias em todos os campos da sua vivência, nomeadamente na escolaridade. Se não há 
emprego ou o dinheiro só dá para a subsistência, como comprar livros, cadernos, canetas, malas,roupas etc.
Em 1878, ainda sob o regime monárquico e meio século decorrido sobre a revolução liberal, o analfabetismo em Portugal atingia 82,4%, quando apenas 
0,08% atingia a Noruega, 0,36%  a Dinamarca, 0,04% a Suécia e 0,51% a Alemanha. Em 1900, ficámo-nos nos 78,6%.
Com a implantação da primeira Republica as questões educativas eram, nos discursos, uma questão central. Os republicanos tinham grande "fé e esperança" na missão da escola e dos seus agentes, como impulsionadores do progresso e desenvolvimento futuro do país. Mas, sem medidas de fundo nas indústrias, comércio e desenvolvimento científico, a sua "fé e esperança" não
passaram de desejos fora da realidade económica e social dos cidadãos que aspiravam a pão e trabalho. Sem que os cidadãos vejam os frutos materiais, não será possível ganhá-los para verem a necessidade de aprenderem a ler e a escrever e sobre tudo a treinarem todos os dias esses saberes. Há um "ditado" que diz: quem não aparece esquece. Ora, neste caso, quem não treinar constantemente a leitura, a escrita, a matemática, a informática etc, vai deixar de estar atualizado e vai regredir ao ponto do "analfabetismo".
Hoje, no século vinte e um, o analfabetismo não deve ser visto com os olhos do século dezanove.
Mas apesar de todo o empenhamento dos Republicanos,os resultados foram frustrantes: em 1920, a taxa de analfabetismo desceu, apenas, para os 66,2%.
Seguiu-se o estado novo, pouco valorizador da educação,como foi o exemplo da redução da escolaridade obrigatória, o fecho de escolas do magistério e o recurso às regentes escolares, entre muitos outros exemplos podiam ser esgrimidos. O regime quedou-se nos 20,5%, segundo o senso de 1970. 
Trinta e cinco anos depois da implantação da segunda República (25 de Abril) e apesar de todo o "esforço" ( palavra mais que  gasta em todos os discursos dos vários governos pós 25 de Abril, ainda continuamos na cauda da Europa e temos cerca de um milhão de cidadãos analfabetos.
Portugal continua ainda com 8% de cidadãos analfabetos. Mas a situação, hoje, no século vinte e um, revela-nos a gravidade das formas de analfabetismo, como é a literacia, que grassa: "cerca de metade dos portugueses é quase incapaz de utilizar com facilidade a escrita e a leitura na vida quotidiana", como revelam recentes estudos, de âmbito Internacional, sobre analfabetismo funcional e literacia. O último estudo Internacional do IEA-Reading Literacy em que participaram 32 países. Foram avaliados níveis de leitura de crianças com 9 a 14 anos, que apesar de conseguirem descodificar palavras, frases e até textos, muitas crianças e muitos adultos não conseguem usar a informação escrita contida em livros,jornais, folhetos, etc. Apesar de conhecerem os números uma grande parte das pessoas não conseguem fazer cálculos simples.
Os programas das "Novas Oportunidades", que foram lançados para reconhecimento e validação de competências, vieram possibilitar aos cidadãos, que: tinham feito apenas a 4ª classe (designação antiga), ou não
tinham completado o ensino obrigatório, ou não tinham completado o ensino secundário, completarem a restante escolaridade e fazerem uma reciclagem,
um treino intensivo, que quer continuação. É esta a visão que deve ser absorvida, em primeiro lugar pelos cidadãos que frequentaram ou frequentam tais cursos. Mas, esta visão, principalmente pelos governantes, pelos empresários e instituições várias, públicas ou privadas. Porque a formação, seja ela técnica ou profissional, ou de cultura geral, deve ser permanente.
Devem existir cursos periódicos de manutenção, atualização e de novos conhecimentos. As instituições, públicas ou privadas, não devem deixar a formação, atualização e fornecimento de novos conhecimentos, ao livre arbítrio do cidadão individual.A formação e a cultura é um investimento e como investimento que é, deve ser orientado no sentido do aproveitamento dos recursos do país e não apenas ao impulso individual.
Só com uma política integrada (económica, social, cultural e cientifica) e intransigente, contra o não saber e pelo conhecimento permanente, será possível dar passos seguros que reduzam o desemprego, a miséria, as discriminações e valorizem o ser humano em primeiro lugar e permanentemente.
Mas, esta luta só será ganha, na minha opinião,se os países e os vários continentes se juntarem e harmonizarem, recursos, meios e medidas à escala
global. É necessário deslocar recursos, meios, conhecimento e pessoas à escala global, para resolver problemas que são globais. A política egoísta, 
mesquinha e vampírica de olhar o mundo repartido por dois ou três e não como sendo de todos os animais, incluindo o homem, que habitam e vivem no planeta, é a génese de todos os desequilíbrios na natureza.

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