Chegados ao final do ano de 2014, dou início a uma reflexão
sobre a tão propalada crise da “família”. Aqui publico uma primeira parte dessa
reflexão.
Reflexão 1ª parte
Ao longo da evolução humana, a família não existiu sempre,
tal como a conhecemos hoje, assim como o Estado não existiu sempre.
Com a Revolução Industrial e a instauração do sistema de
produção, o sistema capitalista objectivamente dividi-o a sociedade em classes
sociais com interesses irremediavelmente opostos.
Com o desenvolvimento das forças produtivas, a sociedade foi
organizando numerosos organismos para defender e controlar o aumento das
riquezas. Criaram meios coercivos do Estado, constituíram um enorme aparelho
para manter os seus privilégios.
Criaram o exército, polícia, tribunais e sistema judicial e
prisional como órgãos repressivos para produzir e aplicar leis defendendo a sua
propriedade privada.
Criaram um sistema educativo e religioso para formarem e
educarem as famílias, á luz dos direitos e dos privilégios das classes
dirigentes do Estado e dos capitalistas.
A família tornou-se, assim, um foco de exploração e
opressão.
Ao longo da história, da evolução e também das crises do
sistema capitalista, a família, tornou-se, “de repente” no centro das atenções.
Esta crise económica manifesta-se, no seio da família, nas relações
entre casais, assim como entre pais e filhos.
A crise no seio da família pode, e tem vindo a, tomar várias
e inúmeras formas. São exemplos os dramas das violências domésticas, que de
domésticas só tem o nome, pois são públicas, os dramas das separações, com
divórcios ou sem eles, no papel, os abandonos das mães solteiras, os conflitos
entre sogros, os conflitos entre pais e filhos, os conflitos entre irmãos, as
guerras que se desencadeiam na disputa das heranças, os abandonos dos velhos
nos hospitais, nas casas e nos asilos, jogados para o poço da solidão e do
esquecimento.
Os jornais, revistas, televisões e cinema dão-se ao luxo de
fazer espetáculos e ganharem rios de dinheiro à custa destes dramas humanos,
gerados pelo seu próprio sistema económico capitalista.
É evidente a profunda crise no seio da família, mas quais as suas
causas? Qual a sua raiz? Como acabar com esta crise? Qual o remédio para
erradicar o mal?
As classes dirigentes e privilegiadas do(s) Estado(s) reúnem
pelo mundo fora, gastando milhões e milhões dos dinheiros públicos, mas nada
resolvem a favor dos indivíduos e das famílias.
As medidas que vão tomando são sempre no sentido de manter a
ameaça, aos seus privilégios, o mais longe possível.
Sendo evidente e profunda a crise da família, as explicações
e os remédios multiplicam-se. As revistas, sobretudo as destinadas às mulheres,
abundam em conselhos para manter a harmonia no lar ou para a educação das
crianças. Psiquiatras, Psicólogos, médicos, e tantos outros técnicos ligados ao
ensino, manifestam-se preocupados, mais com a juventude delinquente, e tentam
travar o mal. O menos que se pode dizer é que os resultados são ilusórios, ainda,
ainda que certos estudos revelados frequentemente, possam ser interessantes e
até úteis.
No meio desta confusão, destas tentativas, devemos reparar que o
próprio princípio de família nunca é contestado. Parece que
se considera a família como uma instituição que sempre existiu desde sempre,
que os cuidados com as crianças incumbem necessariamente aos pais, que devem
ver aí a sua preocupação essencial.
Na verdade, os padrões da família variaram ao longo dos
séculos, como qualquer evolução humana, e cada sociedade procurou a que lhe
parecia melhor adaptada às suas necessidades e, em seguida, dedicou-se a
conservá-la sem alteração. Em todos os casos, a família, tem permanecido sempre
como a base da vida social e, é a instituição mais respeitada, pela razão bem
evidente que é através dela que tem sido assegurada a continuidade da espécie.
A sacralização da família, consciente ou inconscientemente, está profundamente
enraizada no espirito da esmagadora maioria e é por isso que qualquer ofensa
que tem por objecto a base da família aparece como um sacrilégio.
No entanto, se a organização da família tem uma base
material, a ideologia familiar é uma superstrutura, e é necessário pensar, com
exatidão, que sofrerá, por sua vez, uma transformação total com a mudança das
bases económicas da sociedade.
Não será errado afirmar que, a crítica da família não fere
apenas interesses e tradições enraizadas, assim como sentimentos profundos, aos
quais a maioria dos indivíduos se sente ligados. Assim sendo, apesar de todas
as suas fraquezas, conflitos e guerras, a família, ainda se, mantem o centro de
apoio, segurança e afecto. A dedicação natural dispensada às crianças permite à
mulher a satisfação do seu instinto maternal, fazendo-a sentir a sua
importância, sendo que, também a criança, no seu início de vida, apenas pode
continuar a existir graças à ternura, aos afetos e aos sacrifícios que a mãe
faz pela criança. A mulher gera a criança, trá-la ao mundo, mas ainda tem que
lhe ensinar gestos, hábitos e comportamentos que a devem preparar para o
caminho da adolescência e até atingir a fase adulta.
Tudo isto porque a sociedade não está à altura de a
substituir num grande número de funções, a mãe, principalmente, prolonga, por
muito tempo, a protecção, vigilância e sacrifícios, e desta forma reforça os
laços que a ligarão sempre aos filhos. Não podendo ensinar senão o que sabe, a
mãe ensina a sua visão de costumes, de crenças, o comportamento social que ela própria
herdou, e desempenha, deste modo, um papel decisivo na transmissão de hábitos
sociais: este é o mais poderoso meio de persistência da tradição. Dai
afirmar-se que “cada indivíduo é produto do meio onde vive”.

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